O desejo chegou assim, devagarzinho, e de repente, quase sem querer, eu estava pensando em você. Ah, e como eu queria ter umas lembranças suas, nossas, agora, além das duas ou três palavras que trocamos. Ao menos teve o aperto de mão. Ah, o aperto de mão. Uma coisa assim antiga, seus lábios um segundo ou dois no dorso da minha mão.
São tão poucas lembranças, e tanto tempo livre pra lembrar...
E agora me ocorre se você por acaso terá pensado em mim, e que impressão terá tido. Um medo sobe da boca do estômago e me deixa sem ar. Por que meus cabelos não estavam assim tão arrumados, eu não estava assim elegante... E se eu tiver dito algo errado? Então terei de começar tudo de novo. Aquele velho jogo de conquista e poder que eu já não suporto mais. E aquela distância tão curta entre mim e você, alguns passos, ou algumas horas, terão de ser alcançadas assim, devagarzinho, como o desejo que me toma sem que eu perceba, até que eu esteja mergulhada nele, procurando uma desculpa pra achar seu telefone e te ligar. Vou me controlando, me arrumando, ansiando por mais lembranças que possamos criar.
E eu já não tenho certeza de que aquele beijo na mão foi para mim, ou para a moça que estivesse lá. E já não tenho tanta certeza se você vai trapacear e achar meu telefone e me ligar dizendo qualquer coisa assim.
E já não tenho tanta certeza.
16/04/2010
08/04/2010
Transformando Lilly
Eram oito da noite quando Lilly ajoelhou-se aos pés de sua cama para fazer suas orações habituais.
Sempre duravam uma hora. Logo após iniciá-las, seu marido, Tiago, chegou do trabalho e foi direto para a cozinha. Não entrava no quarto porque estava farto de tanta oração. Que Deus o perdoasse, mas Lilly já devia ter rezado suficiente para o resto da vida. Sua, dele, e dos dois filhos. Também não ousava ligar a televisão. Da única vez que tentou, sua esposa começou a orar tão alto que os vizinhos chamaram a polícia.Então, como de costume, sentou-se a mesa para jantar. Em seguida, foi arrumar as crianças para dormir, o que com certeza levaria algum tempo. Filhos na cama, Tiago foi cuidar da louça. Fez o trabalho bem devagar, esperando que a esposa terminasse suas orações sem incomodá-la. Mas olhou o relógio e ficou surpreso: nove e vinte. Lilly rezava até as nove. Guardava os santos, arrumava a cama, e, pontualmente às nove e dez aparecia na cozinha para o interrogatório: já jantou? Estava bom? E no trabalho? As crianças dormiram? Satisfeitas as perguntas, tomava o lugar de Tiago na pia e mandava-o se arrumar para dormir.
Mas dessa vez ela estava atrasada dez minutos. E mesmo que por algum acaso do destino Lilly um dia se atrasasse dois minutos, nunca se atrasaria dez minutos. Tiago deixou a louça quase no fim e foi, pé ante pé até a porta do quarto. Seu queixo quase caiu. Lilly acabara de rezar e estava vendo um filme que ele esquecera no aparelho de DVD. Mas ela ficava sempre apertando o botão “retornar”. Estava fascinada. Nem ao menos notou a presença do marido, que se aproximava lentamente. Na tela, um casal se beijava com carinho, que aos poucos se transformava em paixão e no auge a cena escurecia. Lilly viu essa cena 52 vezes.
Tiago, achando que a esposa estava mudando e que finalmente sua abstinência iria acabar, tentou reproduzir a cena com a esposa. Tentou, porque assim que Lilly percebeu o que estava acontecendo deu um grito, desligou a TV e foi pegar o rosário. Não, o rosário não – pensou Tiago. Mas era tarde. Lilly já começara a resmungar e pedir perdão. A noite ia ser longa.
Tiago refletiu a situação e viu que aquilo não era culpa da esposa. Esse fanatismo, esse medo do pecado, era tudo fruto de uma infância enfiada em igrejas rodeada por mãe e tias. O quanto ele lutava para que as crianças não ficassem assim. Quantas vezes tentou mostrar a Lilly um modo diferente de viver, sem sucesso. Mas ele a amava, e dessa vez tinha um plano. E a primeira parte seria ensinar a Lilly o papel que lhe faltava executar: o de mulher. Sentou-se então ao lado da esposa e começou a rezar junto com ela, que inocentemente esboçou um sorriso e continuou o rosário.
A partir do outro dia, Tiago começou a “esquecer” filmes com cenas picantes no aparelho de DVD. Mas sempre que chegava ajoelhava-se ao lado de Lilly para rezar. Talvez por achar que havia transformado o marido, talvez por ser um a menos por quem interceder, mas Lilly encurtou para quarenta minutos o tempo de oração. E de vinte em vinte segundos a menos, um dia Tiago chegou em casa e a encontrou silenciosa e vazia. Engano. Foi ao quarto e quase infartou: sua mulher vestia uma lingerie branca que combinava perfeitamente com a pele morena. Tiago apaixonou-se novamente pela mulher. Sua mulher. E como era linda. Estava deitada no chão, de olhos fechados. Ele notou que ela não havia rezado, talvez na esperança de que Deus não estivesse lá para vê-la pecar.
Tiago aproximou-se lentamente e deu-lhe um beijo na testa, outro na boca, então Lilly se afastou. Ele achou que ela o estava testando e ia desistir, mas ela o puxou e sussurrou em seu ouvido que queria cuidar dele aquela noite. Beijou-o com carinho, abraçou-o primeiro devagar, depois com força e urgência. Lilly agora percebia o quanto havia sido tola, e cruel com seu marido sempre carinhoso e fiel. Decidida a recompensá-lo, mas ainda com um certo receio, ela, foi tentando lembrar-se de tudo o que vira nos filmes românticos a que assistira. Lentamente o casal foi se descobrindo. Nunca haviam se amado de maneira tão íntima quanto naquele dia. Ficaram surpresos em como se conheciam tão pouco em tantos anos de casados. Essas reflexões, é claro, ocorreram depois, porque no momento, eles só pensavam no prazer que sentiam e que queriam proporcionar ao outro.
No outro dia, a casa estava muito diferente. As crianças perderam a escola pois Lilly não acordou. Tiago chegou atrasado ao trabalho. Mas estava feliz. A primeira parte do plano havia sido um sucesso. Muitas partes ainda estavam pela frente. E a façanha foi um pouco complicada de repetir. Na outra noite Lilly não conseguiu. Precisava de seu terço. E quando o marido pediu que ficasse com ele, ela desabou no choro. Não é pecado, não é pecado – repetia a si mesma. Mas não conseguiu. E Tiago mais uma vez foi paciente. Aos poucos, Lilly foi descobrindo que gostava de amar Tiago. E que esse era um dos motivos para estarem casados. Começou a se porque Deus faria algo tão bom, mas que não pudesse ser aproveitado. E cada vez que via o sorriso de Tiago através da penumbra do quarto, sentia mais segurança.
Logo veio o terceiro filho. Tiago achou que com a gravidez, a festa ia dar uma pausa. Ficou surpreso. Lilly a cada dia queria algo novo, ou tinha uma ideia nova. Ela havia criado um monstro! Até ele estava exausto. Mas sempre ria quando Lilly pulava em cima dele e dizia: “vamos tentar algo novo!” Como amava aquela mulher.
Lilly não deixou de lado sua religião. Apenas descobriu um novo modo de praticá-la. Quando Tiago, depois de muito tempo, lhe contou que ele era responsável por sua mudança, ela apenas agradeceu. E como amava aquele homem.
No fim das contas, tudo estava diferente, mas igual. E Tiago aprendeu uma coisinha: quando chegasse em casa e o terço estivesse na gaveta, era sinal que os lençóis ferveriam.
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