26/03/2010

Canção de um Coração Esfarrapado

Fui caminhar naquele extenso jardim e acabei chegando ao deserto daquela moça. Topei com ela depois de onze dunas. A moça sorriu-me um sorriso sem vida, que estava embaixo de um par de olhos sem vida, juntos num rosto sem vida. Seus gestos suaves não escondiam a aridez de seu olhar. Ela levantou-se devagar, deixando a cabeça por último, numa estranha coreografia que por um segundo me fez pensar que ela mergulharia na areia.
Foi seguindo em frente e fiz menção de segui-la.
Tive ímpetos de segurá-la no colo, tamanho o desespero e a tristeza gritantes em seu olhar, mas me controlei. Perguntar se ela estava bem seria até desumano. Então continuei seguindo-a em silêncio.
- A sua dor sempre dói do mesmo jeito? - Perguntou-me com uma voz ao mesmo tempo fraca e firme. Uma força construída de sofrimento.
Respondi que não. Que o tempo as fazia doer cada vez menos.
- Mas nunca cura. - Dessa vez não era uma pergunta.
- Não. Nunca.
Então ela começou a cantar sua história numa melodia leve e baixa. E me mostrou seu coração, um trapo sujo e esfarrapado que já não batia, soluçava apenas. Enquanto cantava, lágrimas escorriam por seu rosto, trazendo um arremedo de vida àquela face morta. Mas logo elas cessaram, tão de repente como se o estoque de lágrimas houvesse acabado. Isso foi pior. Pareceu-me que ela ia afogar-se na própria dor, por já não conseguir derramá-las.
Terminou sua canção e levantou a cabeça. Segui seu olhar e me assustei ao perceber que estávamos em frente a minha casa. Olhei nos olhos da garota do deserto. Entreguei-lhe meu coração e pedi-lhe que cuidasse bem dele. Eu sabia que ela o faria.
Ela então virou-se e voltou para suas montanhas de areia.