A memória falha quando é pra lembrar das horas de dormir da infância. A mais distante é de alguns anos atrás. Mas eu sei que sempre vi coisas assutadoras no escuro. Não no escuro total obviamente. por que assustadoras que via, sei hoje, eram formadas pelas sombras dos objetos de cena (digo, do quarto).
O escuro total, descobri, é relaxante. E o problema sério que todos - (eu disse TODOS) temos, uns mais, outros menos com escuro - deve-se ao fator do desconhecido, isso sim, dá um medão.
Mas enfim, tô enrolando e filosofando muito. O fato é que um dia ele chegou e eu tava dormindo, no escuro. Ele chegou de mansinho (como exatamente ele chegou eu não sei, suponho que tenha sido de mansinho porque eu não acordei, se bem que eu tenho um sono ferrado), enfim, ele chegou e foi me beijando, alisando meu cabelo, e chamando meu nome. Tava tudo muito romântico, e nem estranhei por que tava no limbo, nem acordada nem dormindo. Aí ele foi descendo a mão, e daí eu acordei com o susto de onde ele chegou. Aí eu comecei a estranhar o escuro, não porque eu não goste de escuro, mas porque ele nunca está comigo quando está escuro.
Aí, meus olhos não se acostumaram à luz como era de se esperar, e eu sufoquei. Não sozinha, fui percebendo, mas ele estava com as mãos em volta do meu pescoço, apertando cada vez mais forte, e me deixando tonta.
Mas ele estava duplamente estranho, e nem o alívio de me deixar morrer ele me deu. Afrouxou as mãos e me beijou. Eu ainda tonta nem sei se de sono ou do quase estrangulamento, deixei.
Continuei imóvel enquanto ele aproveitava os privilégios de estar no meu quarto de madrugada. Só depois, percebi que ele não era quem eu pensava. Não era aquele carinha. O cheiro era totalmente diferente. E totalmente mau. Fiquei aliviada por que aquele carinha não havia me decepcionado, e deixei. Deixei, por que no fundo eu sabia que ele não resistiria à tentação de me matar. Era algo surreal. E eu notei que ele era bem dramático pra me deixar viva. Deixei ele curtir o seu show.
No fim, como eu já esperava, com grande alívio suas mãos apertarem meu pescoço novamente, e a consciência fugindo, notei o quase grito que dei, mas foi instintivo e ninguém ia ouvir.
Perdi a consciência e pulei, piscando os olhos para a nova escuridão diante de mim. Não a da morte como eu imaginava, mas a do meu quarto novamente. Recobrei a consciência ofegando, e o coração saltitando no peito. A razão me dizendo que era um sonho.
Li em algum lugar, que os sonhos são uma preparação para a vida. Lembrei disso porque, ao acordar, notei a presença no quarto. Notei o peso no colchão. Notei que uma voz chamava meu nome baixinho e alisava meus cabelos...
10/02/2010
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